sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Papéis

A forma que a música deixava nos papéis desarrumados da mesa que outrora vira somente cinzas de cigarro, dia após dia, era de certa forma aconchegante. Arrumar as coisas nunca foi meu forte e admito que, até hoje, não faço muita força pra que o seja. A bagunça me faz me sentir mais confortável. Mas há momentos em que arrumar é necessário. Ou mais, essencial. E a essencialidade sempre me domou.

Na verdade, se pararmos pra pensar, a essencialidade não passa da parte mais forte de nós domando o resto do corpo que ora deseja a inércia, ora deseja outra coisa qualquer.

Mas ali estavam algumas centenas de pedaços picados de papel a rodar e estremecer pelo som do subwoofer poderoso que se orgulhava das ondas sonoras que cuspia no chão.

Os seres humanos têm mania de guardar seu passado, como se isso, de alguma forma, pudesse ajudá-los a definir quem são e lembrá-los disso quando a vida os fizesse perceber que não são nada, ao passo que podem ser tudo. E eu, não fugindo da regra, costumo acumular minhas histórias e meus relatos nessas folhas de papel que acumulam de tudo, poeira a lágrimas.

Momentos existem, no entanto, em que parece que a encruzilhada se tornou tão forte e a mudança de direção tão abrupta que tudo o que era deixou de ser e não faz mais sentido guardar as lembranças de um ser que não é mais.

Vão-se embora as cartas de banco, os extratos, as contas pagas, as contas não pagas, as cartas de cobrança, as propagandas, os jornais, as notícias que relatam aquele paper importante que eu publiquei, ou aquela conferência em que dei uma palestra que mudou o rumo do mundo. Vai também o conjunto de fotos que mostram rostos pálidos de pessoas que parecem não fazer sentido, ou sequer existirem. E vão também as cartas de saudade, de solidão, de necessidade... as cartas que escrevi pra mim mesmo através das mãos dos outros.

Vão-se embora todas as lembranças, tudo o que registrava, nesse mundo, aquilo que fui... e termina-se a música, o chão não treme mais e a vela que balançava em cima do subwoofer cai em cima dos papéis levando a cinzas, novamente, o que guardava aquela mesa. O vinho derramado desde o início sobre os papéis mistura-se agora com o líquido viscoso e escuro que escorre da alma daquele que agora não é mais.

4 comentários:

Paula Maximiano. disse...

Suas letras vão crescendo cheias de impacto, formam palavras, frases e sentimentos que eu não sei definir se não com uma única verdade: "Eu me sinto exatamente assim."
As vezes meu interior me acusa e me faz chegar naquele exato ponto que a vida me flagra. Aquele que eu me perco por vontade e me encontro por medo.
Parece ser o mesmo ponto existêncial que te toca. Aquele que nos faz precisar de perguntas, por já ter respostas pulsantes e células nervosinhas.

Nanda disse...

Eu gostei desse (não que eu não tenha gostado dos outros, mas gostei MAIS desse). A primeira frase é meio estranha pra mim. A repetição da palavra forma com sentidos diferentes fica meio, sei lá... pelo menos na minha opinião.

"Os seres humanos têm mania de guardar seu passado, como se isso, de alguma forma, pudesse ajudá-los a definir quem são e lembrá-los disso quando a vida os fizesse perceber que não são nada, ao passo que podem ser tudo."
E isso é um fato :P
Enfim... bom texto, bom texto. :)

The Blower's Daughter disse...

Os seus textos são sempre PERFEITOS, né... O_O

"Os seres humanos têm mania d guardar seu passado, como se isso, d alguma forma, pudesse ajudá-los a definir qm são..."
Concordo e me identifico totalmente!
Eu só ainda ñ cheguei no estágio d "queimar" td...
xD

Ana disse...

bravo!
muy belo =)
como eu não me contenho (e sei que tenho a liberdade de fazer tal comentário), tem um errinho de português! ^______^

lê de novo e vê se vc acha!

mas, enfim, gostei!
e muito!

xoxo